O antissemitismo e o judeu de hoje (via @floriano45)

Vivemos momentos conturbados como judeus. De acordo com um artigo do Professor Sergio Dellapergola, estudos recentes mostram que o antissemitismo aumentou consideravelmente junto com o racismo, a xenofobia e a intolerância. O judeu atual tem uma percepção aumentada destas ações a partir das manifestações explicitas ocorrendo por iniciativas da população da Europa, América Latina e Oriente Médio.

Ainda segundo o professor, uma pesquisa recente conduzida pela Liga de Antidifamação em mais de 100 países sobre a propagação dos preconceitos negativos em relação aos judeus aponta que são os 16 países muçulmanos os que apresentam maior grau de antissemitismo. Paradoxalmente, este preconceito é maior entre as pessoas que nunca conheceram um judeu ou o próprio judaísmo.

Existem atualmente três vetores antissemitas.

O primeiro é clássico e baseado nos Protocolos dos Sábios de Sião, atribuindo aos judeus um demasiado poder financeiro, político e dos meios de comunicação. Este vetor é antigo e foi usado por Hitler e atualmente pela maioria dos países árabes. Aliás, esta acusação nos é imposta desde sempre. O seguinte vetor nega o Holocausto ou minimiza os fatos, declarando que só morreram alguns judeus durante a Segunda Guerra Mundial. O exemplo mais eloquente desta corrente são os discursos dos líderes iranianos. Finalmente, o terceiro vetor demoniza o Estado de Israel, atestando que o país é responsável por todos os males do mundo enquanto fomenta a destruição sistemática dos palestinos.

Estes três vetores são evidentes quando somos acusados de explorar o Holocausto para tirar proveitos econômicos e políticos, ou que de perseguidos nos transformamos em perseguidores, além de concomitantemente controlarmos as finanças e os meios de comunicação do mundo. Considerando que Israel é a expressão do direito inalienável à soberania política do povo judeu, isolar Israel é o mesmo que negar os próprios judeus.

Uma das formas de antissemitismo mais grave atualmente é a tentativa do boicote comercial e acadêmico de Israel. O boicote acadêmico contradiz o paradigma fundamental da liberdade de pensamento, invenção, livre crítica, e o intercâmbio e a circulação de ideias. O boicote é um grave retrocesso em relação a estes princípios, que reduz as opções, afeta a credibilidade, antecipa a mediocridade intelectual, cria a ciência ruim, finalmente, resultando em uma erosão dolorosa na qualidade das universidades e da sociedade democrática.

Consciente ou não, as pessoas envolvidas no boicote atual renunciam à sua liberdade de escolha individual e ajudam a desvalorizar a validade da profissão acadêmica como indivíduos e como uma articulação da comunidade de um discurso crítico. Esta visão racista de nosso povo tem também alimentado manifestações populares que pregam o ódio ao judeu. Hoje, o judeu é hostilizado nas ruas da Espanha, nos protestos na França e até mesmo nas palavras da ministra de Relações Exteriore da Suecia.

Hoje, o judeu que transita de kipá no país francês é passivel de sofrer ameaças físicas pelo simples fato de ostentar ser judeu através do símbolo que a kipá representa. Na Espanha, historicamente antissemita devido à sua cultura extremamente cristã, vemos a modernização deste racismo instalada na memória e na política espanhola. Uma simples estrela Maguen David pode acarretar olhares expressos de repudia.

Até mesmo no Brasil, sentimos um aumento significante do ódio ao judeu, embasado no viés deturpado da defesa do povo palestino. Tínhamos maior facilidade em nos apresentarmos como judeus e hoje somos frequentamente responsabilizados pela condição do povo palestino. É preocupante ver várias bandeiras palestinas em qualquer manifestação das esquerdas brasileiras. Vemos até mesmo placas com dizeres de ódio ao judeu.

Enfim, o judeu de hoje está acuado frente a tantos exemplos de animosidade para conosco.

Como os judeus podem se colocar contra esta situação perigosa? Em primeiro lugar, aumentar o nível de alerta e combate sem condescendência contra essas formas vulgares de agressão. Podemos também nos valer da persuasão pela palavra e pela educação. Se isto não for suficiente, podemos usas as ferramentas do direito, e, afinal, se nossa sobrevivência for ameaçada, podemos contar com o Estado de Israel.

Finalmente, uma porcentagem crescente de judeus pensa seriamente em deixar os países mais antissemitas e muitos realmente mudam para Israel. Isto é visto na França, Bélgica, Hungria e Itália. Para aqueles que acreditam que a presença judaica é um enriquecimento em uma sociedade democrática aberta à diversidade, este processo de reação contra as manifestações de antissemitismo é uma triste perda.

Floriano Pesaro é Secretário de Estado de Desenvolvimento Social e Deputado Federal

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