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Em cerimônia, rabino ressalta princípios perseguidos por Otavio Frias Filho

2018-08-30 - Uncategorized

Michel Schlesinger citou o confronto de ideias e o estímulo ao contraditório e ao diálogo

Em fala durante a cerimônia inter-religiosa em homenagem ao jornalista Otavio Frias Filho, morto na última terça (21) aos 61 anos, o rabino Michel Schlesinger ressaltou que princípios perseguidos por Otavio, como o confronto de ideias, o estímulo ao contraditório e ao diálogo, são antídotos contra o fanatismo que ressurge nos tempos atuais, em que os indivíduos vivem cada vez mais entrincheirados em suas próprias convicções.

Schlesinger é rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Confederação Israelita do Brasil para o Diálogo inter-religioso.

O ato, com cerca de 500 pessoas na Matriz Paroquial Nossa Senhora do Rosário de Fátima, no Sumaré, zona oeste de São Paulo, foi celebrado por dom Fernando Antônio Figueiredo, bispo emérito da diocese de Santo Amaro, Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista, e Priscila Veltri, do centro budista Chagdud Gonpa Odsal Ling, em São Paulo.

 

Jornalista, dramaturgo e ensaísta, Otavio (1957-2018) foi vítima de um câncer. Durante 34 anos, ocupou o cargo de diretor de Redação da Folha, período em que o jornal se tornou o maior e mais influente do Brasil. Foi mentor do Projeto Folha, que modernizou o jornalismo brasileiro na década de 1980. Sob a gestão de Otavio, o veículo consolidou-se como uma referência no jornalismo apartidário, pluralista, crítico e independente.

A trajetória de Otavio Frias Filho

A seguir, a íntegra da fala do rabino Schlesinger.

Vivemos em um mundo de monólogos. Cada vez mais, observamos indivíduos entrincheirados em suas próprias convicções, ladeados por colegas que pensam da mesma maneira. Se a tecnologia nos possibilitou um universo de oportunidades, seus algoritmos aproximaram pessoas que possuem a mesma opinião num pobre exercício autorreferente.

Enquanto isso, observamos o retorno do ultranacionalismo gerando o fortalecimento da xenofobia. Discursos autoritários voltaram à arena pública sem qualquer pudor, em uma manifestação de saudosismo aos dias em que nossa liberdade foi subtraída pela ditadura militar. Fenômenos como o racismo, a islamofobia e o antissemitismo ainda geram preocupação, apesar das duras lições não aprendidas dos séculos passados.

Por tudo isso, o diálogo é ainda o maior antídoto contra o fanatismo. O confronto de ideias, o estímulo do contraditório, a análise crítica e sofisticada da realidade carregam o potencial de nos libertar de uma leitura binária e maniqueísta do mundo.

Otavio Frias Filho defendeu um jornalismo “apartidário, pluralista, crítico e independente”. Como diretor de Redação da Folha e diretor editorial do Grupo Folha, militou por um diálogo permanente e em torno das diferenças. Sob sua direção, a Folha se tornou o maior e mais influente jornal do Brasil.

Seus amigos descreveram sua obsessão ao pluralismo. Otavio buscava equilíbrio em seus textos e orientava seus colegas a seguir por este mesmo caminho. Perseguiu uma cobertura profunda que expusesse os diferentes assuntos em toda a sua complexidade e facultasse ao leitor a possibilidade de forjar suas próprias conclusões.

Queridos Fernanda Diamant e suas filhas Miranda e Emília, queridos Maria Helena, Luiz e Maria Cristina: Otavio Frias viverá por meio dos princípios que sempre defendeu. Na medida em que soubermos promover o diálogo nos diferentes âmbitos da sociedade, seu legado permanecerá presente.

Como diz a nossa tradição judaica, “que a alma do Otavio permaneça conectada à corrente da vida eterna”. Shalom.

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